23 fevereiro 2008

Peso ou leveza?

"Não faz muito tempo, flagrei-me experimentando uma sensação absolutamente inacreditável. Folheando um livro sobre Hitler, comovi-me com alguns de seus retratos: lembravam minha infância. Eu cresci durante a guerra; vários membros de minha família pereceram nos campos de concentração de Hitler; mas o que foram suas mortes comparadas às memórias de um período já perdido de minha vida, um período que jamais retornaria?

Essa reconciliação com Hitler revela a profunda perversidade moral de um mundo que repousa essencialmente na inexistência do retorno, pois, num tal mundo, tudo é perdoado de antemão e, portanto, cinicamente permitido.

Se cada segundo de nossas vidas repete-se infinitas vezes, somos pregados à eternidade feito Jesus Cristo na cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre cada movimento que fazemos. É por isso que Nietzsche chamou a idéia do eterno retorno o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então nossas vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.

Mas será o peso de fato deplorável, e esplêndida a leveza?

O mais pesado dos fardos nos esmaga; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.

Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

O que escolheremos então? O peso ou a leveza?"

Milan Kundera, em "A Insustentável Leveza do Ser".

21 fevereiro 2008






Tudo Novo de Novo


"Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos"


Paulinho Moska


É, acho que a dualidade e o paradoxo sempre existiram e sempre existirão em mim (e no mundo?). Mas aquela separação, aquelas duas personagens que se alternavam em mim (vide post um pouco abaixo), bem, uma delas foi-se... feliz de poder dar lugar a outra(s), feliz por poder começar tudo novo de novo...

04 fevereiro 2008

Redescobrindo os clássicos...

Tempo de mudança é sempre tempo de futuro e de passado, simultaneamente...

E com isso, redescubro os clássicos! E também graças a uma pessoa única que surgiu na minha vida!!!

Delicie-se!!!


PS: só clicar no título

02 fevereiro 2008

Duas Vidas

Muitas vezes, sinto que as coisas não terão solução. Como se tudo que acontecesse fosse findável em si mesmo, e não como se, mesmo findo, algo novo surgirá e a vida seguirá seu rumo.
Sinto como se vivesse uma vida dupla.

Na primeira eu ainda sinto todas as emoções de meu coração partido, a dor infindável da separação, do amor que continua a pulsar em mim, de todos os planos que não aconteceram, de todos os desejos que ficaram pra trás, de toda fé depositada que agora é sem lugar... Dor que não diminui, que não passa, que persegue e inferniza. Dor que consome e parece tomar-me inteira, completa, como se não houvesse nada a mais, nada além. Dor pelo que não aconteceu, pelo o que não vivi ao lado dele, dor por aquilo que nunca chegaremos a ser.

Na segunda sou uma pessoa totalmente nova. Segura, com força de vontade e coragem, sigo em frente sem olhar pra trás. Vivo um dia de cada vez, lamentos, fazendo sempre o melhor que posso. Tento ser a melhor mãe, a melhor artista, a melhor empresária, a melhor estagiária, a melhor dona de casa, a melhor amante... Tudo me impulsiona pro futuro, pro que há além, pras possibilidades e novas oportunidades. Riscos não são problema, pois se existem, valem a pena. Sinto que vivo e que quero viver, sem me prender ao que de ruim me aconteceu.

As duas vidas coexistem, e alternam-se com uma frequencia absurda. Quando estou em uma, a outra não deixa de existir, apenas se esconde por hora... e acaba sempre retornando...

A esperança é apenas uma delas sobreviva... de preferência aquela que me leva pro infinito...